Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Tibete: A voz da memória

Ana Mantegazza

Quando ouvimos falar de genocídio, naturalmente, pensamos no holocausto dos judeus e nos esquecemos dos muitos que continuam a ser cometidos. E a perda da memória desses fatos pode nos levar a uma implícita e perigosa conivência com essas tragédias


Não faz muito tempo que de um cantinho remoto e esquecido de nosso mundo, levantaram-se vozes que tristemente sussurraram a tragédia do Tibete e de seu povo.
A voz do Dalai Lama e de todos os que foram forçados a deixar seu país para escapar da perseguição chinesa, após a revolta de 1959, pode seu ouvida, mas ainda são poucos os que prestam atenção a essa história de dor. Geralmente, as autoridades, as fontes oficiais, os governos fazem-se surdos em vista de interesses - dizem - maiores e evitam de falar de uma história que conta com um milhão de mortos, milhares de prisioneiros mantidos em condições limite de sobrevivência e sob torturas. O menor entre todos esses males ainda é o exílio.
À dor da violência física, os tibetanos somam a tragédia de ver seu país, sua milenar cultura aniquilada pelo invasor comunista que tenta riscar todo um povo da história e do mapa do mundo: os templos foram depredados de sua riqueza e a maioria destruídos; dos 550 mil monges que havia em 1950, hoje sobrevivem somente 15 mil.
Aos poucos que se refugiaram em Dharamsala, na Índia, só resta a dignidade da própria dor, o desejo de manter vivas as próprias tradições e de testemunhar ao mundo - dito civilizado - as perseguições sofridas. Uns contam, em primeira pessoa, a triste história do país que sofreram na própria carne de pri-sioneiros e torturados; outros se espalham pelo mundo afora para contar a verdade sobre a propaganda enganosa do governo comunista chinês.

Adhe Taponisang

Algumas dessas histórias foram recolhidas nos livros que querem manter viva a memória do mundo a respeito de todos esses holocaustos. Uma dessas histórias é a de Adhe Taponisang, uma tibetana de 67 anos, que passou 27 nas prisões dos comunistas chineses, sofrendo toda sorte de torturas: estupros, violências sexuais, desnutrição, trabalhos forçados, isolamento. Mas ela sempre suportou tudo com a firme vontade de sobreviver, de ser a voz de todos os prisioneiros que, como ela, foram torturados e até morreram em conseqüência delas.
Ama Adhe, isto é, "Adhe, a mãe", como a chamam os que a conheceram e foram por ela ajudados, foi presa quando tinha 26 anos e uma família com dois filhos. Por fazer parte de uma organização de suporte e de um movimento de resistência contra o invasor chinês, por ter se recusado a revelar nomes de companheiros de luta e suas "contestações" contra as imposições dos carcereiros, foi condenada várias vezes.
A oração foi sua defesa contra as tentativas de doutrinação e dos violentos processos públicos das autoridades comunistas; sua atitude era como a da pedra que embora submersa na água, conserva seu interior sempre seco. Durante sua detenção, apesar dos seus sofrimentos e dos trabalhos forçados, ela sempre confortou seus companheiros com pequenos gestos de solidariedade. Após sua libertação, percebeu que o mundo em que tinha vivido e deixado 27 anos antes, não existia mais. Sua família tinha desaparecido, as montanhas foram devastadas e, no "país das neves", ninguém mais podia falar livremente e professar sua religião. Até mesmo o fato de possuir um simples retrato do Dalai Lama era um grave delito diante da autoridade invasora. Foi diante dessa realidade que surgiu em Adhe a vontade de travar uma nova luta, para que o mundo conhecesse a escravidão em que vive hoje seu povo, cuja cultura milenar está sendo aniquilada por um genocídio atroz.
Tendo conseguido deixar clandestinamente o Tibete para se juntar em Dharamsala, na Índia, aos refugiados, "Adhe Ama é a voz que lembra" e tem levado, através de inúmeras viagens a países ocidentais, a terrível experiência do seu povo. Com a ajuda de uma pesquisadora americana, ela está publicando um livro onde conta sua história, ainda não editado em português.

Vozes e mais vozes

Adhe não está sozinha nessa denúncia corajosa. Outras pessoas, após terem escapado dos horrores da perseguição chinesa, animam-se a denunciar o propósito de eliminar um povo, para apropriar-se do Tibete.
Yangdol e Kyzom, duas monjas budistas de vinte e poucos anos, tornaram-se companheiras, casualmente, na arriscada viagem para a liberdade. Elas também foram presas por terem protestado contra as imposições do governo invasor. Yangdol contestava nas ruas de Lhasa contra a ocupação do Tibete e Kyzom foi encarcerada durante um protesto de jovens contra o exército chinês.
A história das duas jovens, presas durante um protesto de rua, num país onde a mulher é considerada inferior ao homem, adquire um raro simbolismo das mudanças impostas pela invasão e revela o desespero a que se chegou no Tibete que subverte tradições seculares: a angústia para preservar seu próprio povo leva jovens de ambos os sexos a sacrificar sua juventude.
Após desafiar aventuras nas neves da Himalaia para sair clandestinamente do Tibete, as duas monjas continuam agora sua luta através da palavra para despertar a memória internacional, para que o Tibete possa ser livre.
Podem ser vozes isoladas, mas importantes para que a memória desse genocídio não se apague e para que outros não mais se realizem sob o olhar distraído da opinião mundial.
Adaptado de Itália Missionária

O Tibete é um país montanhoso ao norte da Índia, cobiçado pelas potências vizinhas e que conheceu períodos de independência e de submissão a potências estrangeiras. Em 1720, a dinastia chinesa dos Quins criou um protetorado que incorporava o Tibete à China, fato que motivou o atual governo comunista chinês a arrogar-se o direito de ocupá-lo como parte de seu território, o que aconteceu em 1950.
No fim do século passado, o Tibete tornou-se independente sob a liderança temporal e espiritual do Dalai Lama, considerado a reencarnação de outros Dalai Lamas, mantendo, portanto, uma continuidade secular da identidade do povo tibetano que pratica um budismo particular.
Em 1959, o povo revoltou-se contra a ocupação e, diante dos massacres, o Dalai Lama e os que puderam exilaram-se. Em 1965, o Tibete foi agregado como região autônoma à República Popular Chinesa. Durante todos esses anos, houve protestos, guerrilhas e revoltas do povo contra a ocupação chinesa.
O país, totalmente montanhoso, tem uma superfície de 2,6 milhões de km2 e uma altitude média de 4000 metros.

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