Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Aqui na Zâmbia tudo caminha bem, graças a Deus. Somente o calor que nos faz derreter durante o dia e nos deixa com o mormaço durante a noite... Nestes dias o calor tem sido demais.

O Zâmbia, no momento, está vivendo um momento político importante com a corrida presidencial. Embora não saibamos ainda quando serão as eleições, estamos tendo a oportunidade de ver um debate interessante na TV. No entanto, podemos ver claro que o partido do governo se utiliza descaradamente da máquina governamental para a sua campanha e ainda tem a cara de pau de criticar os demais partidos quando eles recebem apoio de fora.

É triste ver que o dinheiro destinado aos projetos sociais, como construção ou manutenção de estradas, hospitais e outros, necessários para o povo, está sendo desviado para esta campanha eleitoral.

A Igreja Católica, e umas poucas outras igrejas, está na linha de frente com críticas ao governo e sua maneira de atuar e gastar o dinheiro público. Meses atrás, quando o presidente queria mudar a constituição para acomodar um seu terceiro mandato, a Igreja gritou. A idéia não passou, mas em contrapartida, a Igreja ficou visada. Nos negaram a permissão para cortar ramos de palmeiras para o Domingo de Ramos porque a palmeira só é encontrada em parques nacionais.

Um país cada vez mais pobre

Acabamos de receber o resultado do censo feito no ano passado, no qual podemos confirmar que o país esta ficando cada vez mais pobre à custa do enriquecimento de poucos. São 10.300.000 habitantes, 52% mulheres e 48% homens. A expectativa de vida baixou para 38 anos (sim, somente 38 anos!). Boa parte da população continua sendo considerada população rural, embora não tenham condições de se manter por lá, devido a falta de incentivo, chuva, condições para plantar, etc. O povo está morrendo a mingua nos povoados do interior.

A Igreja está tentando aliviar esta situação criando alternativas na área social. Grande parte dos projetos de assistência social e humanitária vem da Igreja. Não me refiro aqui a um assistencialismo barato que não ajuda a população mas a projetos como educação popular, corte e costura, artesanato, carpintaria, mecânica, hotelaria como no caso de Livingstone onde moro, uma cidade turística em crescimento, etc.

A diocese de Livingstone está empenhada na construção de um centro de treinamento para órfãos e crianças de rua, na maioria vítimas do AIDS que está matando sem perdão na África e na Zâmbia de modo muito especial. Existem programas de conscientização e prevenção feitos pela Igreja como o BCP – Mudança de Comportamento para a juventude, mas infelizmente ainda não começaram a mostrar efeitos. Assim, vamos vivendo uma vida de enterros, um atrás do outro. Coisa triste de se ver.

A diocese tem um hospital e duas clínicas rurais. O mais impressionante é ver as maiores causas de morte registradas nestes centros: complicações no parto, malária, AIDS e suas conseqüências. Imagine um país que deixa suas mães morrerem por falta de uma assistência adequada... e boa parte são mães tendo seu primeiro parto, portanto gente jovem.

É neste meio que vivo a minha vocação de missionário. Não é fácil, no entanto, ver toda esta situação e não puder fazer nada ou quase, não porque não queira fazer, mas porque a situação está realmente caótica.

Acho que vou ficando por aqui, pois as palavras de desconforto e tristeza já são muitas. Mas, ainda tenho tempo de pedir a todos vocês, por orações. Sem elas, a nossa vida ficaria ainda mais difícil por estas terras zambianas.

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