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CIDADE DO VATICANO: 25/11/2003
Cardeal diz que congresso impulsionará ação missionária
Entrevista com o cardeal Crescenzio Sepe
CAM2

Nesta terça-feira, dia 25 de novembro, começará na Guatemala o II Congresso Americano Missionário (CAM2), o grande encontro eclesial que reunirá cerca de 3.000 delegados de todos os países americanos, desde o Alasca até a Terra do Fogo, comprometidos no anúncio missionário dentro e fora do continente.

Como enviado especial do Papa, irá à Cidade da Guatemala o prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, o cardeal Crescenzio Sepe, que nesta entrevista concedida a Fides aborda o significado do congresso e a situação e desafios da missão na América e no restante do mundo.

--Eminência, o que é um Congresso Americano Missionário?

--Cardeal Crescenzio Sepe: Um Congresso Americano Missionário (CAM), é um encontro do Povo de Deus, especialmente de todos aqueles que na Igreja na América (norte, centro, sul do continente e Caribe) desenvolvem de algum modo uma atividade de promoção e de animação missionária "ad gentes" em nível local, regional ou nacional.

A finalidade primordial de um CAM é animar as Igrejas particulares do continente para que assumam sua própria responsabilidade missionária na específica tarefa da evangelização de todos os povos. Estes Congressos, que por si não constituem um encontro de especialistas em missiologia, tem um caráter eminentemente pastoral e são um instrumento valioso, quase indispensável, para dar profundidade, forma e vida à consciência missionária destas Igrejas.

--Qual foi a origem destes Congressos?

--Cardeal Crescenzio Sepe: Os Congressos Americanos Missionários tiveram sua origem no México, na cidade de Torrerón, em ocasião do VII Congresso Nacional Missionário, celebrado de 20 a 23 de novembro de 1977. Por uma série de circunstâncias, que eu definiria providenciais, este Congresso se converteu no primeiro Congresso Missionário Latino-Americano (COMLA), reconhecido como tal, graças à entusiasta presença do enviado especial do Santo Padre, meu predecessor na Congregação para Evangelização dos Povos, o cardeal brasileiro Angelo Rossi. A participação no mesmo dos presidentes das Comissões Episcopais de Missões e dos diretores nacionais das Obras Missionárias Pontifícias de diferentes países de América Latina deu a este encontro um caráter continental.

Outros quatro Congressos Missionários Latino-Americanos, celebrados ao longo da geografia do continente, seguiram ao primeiro COMLA: o segundo foi celebrado também no México: Tlaxcala, 1983; os dois seguintes tiveram sua sede em Bogotá (Colômbia) em 1987 e Lima (Peru) em 1991; o quinto foi celebrado em Belo Horizonte (Brasil) em 1995.

Seguindo os passos do Sínodo dos Bispos para América e o desejo do Santo Padre de favorecer a unidade espiritual dos povos do continente, os organizadores do VI Congresso Missionário Latino-Americano, que se celebrou em Paraná (Argentina) em 1999, consideraram que este encontro missionário poderia ser considerado um fruto deste Sínodo se se estendesse o âmbito de sua celebração a todas as nações do continente, desde o Alasca até a Terra do Fogo.

E assim o VI COMLA se converteu no Primeiro Congresso Americano Missionário (CAM1), abraçando pela primeira vez todos países do continente. Penso que seja este também um dos "frutos de comunhão e solidariedade na integração de uma Igreja em uma América", ao que faz referência o "Plano Global 2003-2007" do Conselho Episcopal Latino-Americano.

--Por que sua celebração na Guatemala?

--Cardeal Crescenzio Sepe: Se observarmos a geografia americana, advertimos como a Guatemala é o "coração" do continente, a nação que une, junto com os demais países centro-americanos, o norte e o sul do "novo mundo". Contudo, creio que sua situação territorial, já por si muito eloqüente, não é suficiente para explicar qual foi a razão pela qual se elegeu Guatemala como a nação sede do CAM2.

Penso que a Igreja na Guatemala, nação que na história da Igreja na América teve um papel de primeira ordem, continua tendo no presente e no futuro imediato do continente uma grande importância. Uma prova disso são as três viagens que João Paulo II quis realizar a essa nobre nação.

Na ocasião de sua segunda viagem apostólica (fevereiro de 1996), o Santo Padre rendeu uma merecida homenagem "às centenas de catequistas que, junto com alguns sacerdotes arriscaram suas vidas e inclusive a ofereceram pelo Evangelho". A herança destes heróis da fé, declarou João Paulo II, "leva a urgente tarefa da evangelização: é necessário --dizia-- que nenhum lugar nem pessoa fique sem conhecer o Evangelho". No ano passado, com ocasião de sua visita para a canonização do Irmão Pedro de Betancur, o Santo Padre manifestou --como exemplo a ser imitado por todos-- o testemunho de santidade desse grande missionário, fruto do "encontro interior com Cristo que transforma o ser humano, enchendo-o de misericórdia para com o próximo".

A Igreja na Guatemala se preparou para o Congresso com um grande sentido de responsabilidade. Diferentes iniciativas em nível local, nacional e centro-americano, como por exemplo o "Ano Missionário", souberam sensibilizar adequadamente todo o Povo de Deus, no primeiro momento os fiéis guatemaltecos sentiram o Congresso como algo próprio.

Um sinal eloqüente do amor do povo guatemalteco para com o Congresso é a hospitalidade e o modo tão generoso com o qual as famílias da capital se preparam para acolher e assistir os mais de 3.000 congressistas. Tal trabalho foi promovido e realizado pela Conferência Episcopal da Guatemala; em modo particular, pelo senhor cardeal Rodolfo Quezada Toruño --arcebispo da Guatemala--, pela Comissão Central do Congresso, presidida por Dom Julio Cabrera Ovalle --bispo de Jalapa--, assistido pelo diretor nacional das O.M.P., o padre Antonio Bernasconi.

--Qual será o aspecto prioritário do II Congresso Americano Missionário?

--Cardeal Crescenzio Sepe: Tendo em vista o contexto social e eclesial da área centro-americana, penso que "os exemplos de entrega sem limites por causa do Evangelho" que em situações dramáticas souberam dar muitos filhos e filhas da Igreja nestes amados países --entre os quais não podemos esquecer ao que foi bispo auxiliar de Guatemala, Dom Juan Gerardi Conedera--, indicam-nos um dos pontos centrais do próximo Congresso: acolher o chamado à santidade, por parte de cada fiel e de toda comunidade cristã, constitui a premissa indispensável para que as Igrejas particulares na América assumam responsável e solidariamente o compromisso da missão "ad gentes".

Creio que a Igreja na Guatemala e nos demais países centro-americanos, partindo da riqueza de sua fé purificada no fogo da prova, do tesouro de seus testemunhos da fé e do testemunho da comunhão eclesial entre seus diferentes povos e etnias, pode oferecer uma grande contribuição à toda Igreja na América e, portanto, à Igreja universal. Com seu exemplo nos demonstra que só desde os dons da graça recebidos no sacramento do batismo --plenamente desenvolvidos, vitalmente assimilados--, ou seja, somente desde uma vida santa, se pode ser testemunho veraz do mistério do Amor de Deus e é possível assumir com valentia o chamado universal à missão.

O Santo Padre inaugurará o Congresso mediante uma mensagem que, por meio de seu enviado especial, dirigirá aos participantes do mesmo. Todos nós, especialmente as Igrejas particulares do continente, esperamos as palavras do Papa como um estímulo e uma guia para o desenvolvimento da missão "ad gentes" na América e desde América.

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