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NEPAL: 01/10/2004
Entrevista
Uma pequena comunidade testemunha o Evangelho
nas montanhas tibetanas
Enquanto no país reina uma greve geral e circulam rumores sobre
a possível retomada das negociações entre o governo
e os rebeldes, a pequena comunidade católica do Nepal continua
a sua vida e seu trabalho pastoral, entre dificuldades e esperanças.
Padre Pius Perumana, Pró-Prefeito na Prefeitura Apostólica
do Nepal, ilustra, em uma entrevista à Agência Fides, as
atividades, a situação e os projetos da pequena comunidade
católica nepalesa, que conta 7.500 pessoas.
Pe. Pius reside no pequeno vilarejo de Godavari, a poucos quilômetros
da capital, Catmandu, onde há pouco, surgiu um novo Centro Pastoral,
que promove diversas atividades. O Nepal é um reino de maioria
hinduísta (75% dos 27 milhões de habitantes). Os budistas
são 8,2%, os muçulmanos, 3,9%, e os cristãos, no
total, 2,5%. Eis a entrevista com o Pe. PiusP:
- Como é a vida da Igreja no Nepal?
- No Nepal, nós católicos não temos a possibilidade
de evangelizar os não-cristãos. A Constituição
o proíbe, e designa o hinduísmo como religião de
Estado. Podemos praticar a nossa fé e catequizar somente em nossas
paróquias. O reato de conversão é punível
com três anos de prisão, ou com a expulsão do país.
Por isso, se alguém quiser adotar a religião católica,
deve ser levado à Índia, para ser batizado. Assim, a Igreja
não viola as leis do Estado. O nosso trabalho pastoral se desenvolve
sobretudo no campo da instrução, depois que o governo autorizou
a reabertura das escolas católicas. O ensino que oferecemos é
o mesmo do currículo escolar estatal, não confessional.
- Quando a Boa Nova chegou ao Nepal?
- Depois da chegada dos primeiros missionários, nos séculos
XVII e XVIII, a Igreja renasceu em 1951, com a chegada do jesuíta
americano Pe. Marshall Moran, que, da área indiana de Patna, fundou
no Nepal uma filial da St. Xavier School. A escola obteve a autorização
para realizar sua obra de instrução. Desde então,
a comunidade começou a crescer. Em 1983, quando o governo de Catmandu
solicitou relações diplomáticas com a Santa Sé,
foi instituída a Missio sui iuris do Nepal, desmembrando o território
da diocese de Patna (Índia), sendo confiada aos jesuítas.
Em 1996, foi elevada à Prefeitura Apostólica, encabeçada
por Dom Anthony Sharma Sj, o primeiro sacerdote nepalês da história.
- Que dificuldades encontram na ação pastoral?
Uma dificuldade real para a Igreja é o fato de não ser
reconhecida pelo governo como entidade. Isto nos causa diversos problemas
burocráticos, pois todo pedido, no país e no exterior, deve
ser feito em nome de um privado, e não de uma instituição.
O Núncio Apostólico, Dom Pedro Lopez Quintana, que reside
na Índia, e o nosso Prefeito, pediram que esta questão seja
examinada pelo Parlamento nepalês, mas é muito difícil,
embora a comunidade católica seja muito apreciada na nação.
Até mesmo o Rei Gaynendra, do Nepal, freqüentou uma escola
católica e foi aluno de Dom Anthony Sharma.
- Como é organizada a Igreja católica?
- No total, a comunidade possui 5 paróquias e 2 "quase-paroquias"
(segundo o direito canônico, uma comunidade de fiéis que,
por motivos particulares, ainda não foi erigida como paróquia,
Can. 516) que dispõem de salas multiuso, nas quais realizamos atividades
pastorais e celebrações litúrgicas. Os sacerdotes
diocesanos são 11, os sacerdotes religiosos, 38, e as religiosas
118.
Há também 4 seminaristas maiores e 10 seminaristas menores,
todos nepaleses, oriundos de áreas tribais. A Igreja, com suas
23 escolas, consegue oferecer ensino a muitos jovens nepaleses, principalmente
não-cristãos. Ofertas do exterior garantem bolsas de estudo
aos estudantes de famílias mais pobres. As pessoas são muito
gratas a nós por isso, e quando nossa escola foi atacada (como
no último dia 12, em Gorkha), os moradores da aldeia se ofereceram
para ajudar a reestruturá-la.
Também muito importante é a obra social desempenhada pela
Caritas, que é reconhecida como Organização Não-Governamental.
Está presente em 45 distritos, oferecendo instrução
aos refugiados do Butão, expulsos do país principalmente
por motivos religiosos. Promove ainda programas de desenvolvimento e cooperação
dirigidos a mulheres, agricultores e pequenos negociantes. Este trabalho
é realizado em cooperação com as ONG's locais, quase
sempre em regiões remotas.
- A vida da Igreja é influenciada pelo conflito atual, entre governo
e guerrilha maoísta no país?
- A comunidade católica vive uma vida razoavelmente tranqüila,
não obstante o conflito. Esperamos que a nossa presença
aumente e se enraíze cada vez mais como uma presença de
paz, desenvolvimento e bem-estar para a população do Nepal.
Mas infelizmente, o país ainda não está pacificado.
O problema dos maoístas persiste, e a solução não
parece próxima. Os guerrilheiros contam com cerca de 15.000 homens,
além de apoio popular, em troca de promessas de justiça
social e bem-estar.
No entanto, o conflito entre maoístas e forças do governo
já fez 9 mil mortos nos últimos 10 anos: preço alto
demais para a nação. O turismo está em crise, a economia
paralisada; sem a pacificação, o país não
terá futuro. É certo que desde que começaram a seqüestrar
e matar, perderam grande parte do apoio do povo, cansado desta violência.
Porém, a paz está ainda distante porque ambas as partes
acreditam que vencerão esta guerra, e continuam a lutar. O governo
do Nepal conta com o aval de Estados Unidos, Grã-Bretanha e Índia.
Os maoístas têm, por sua vez, ajuda de grupos guerrilheiros
de alguns estados indianos, e arsenais provenientes de tráficos
clandestinos".
- Como a Igreja se posiciona, nesta situação?
- A Igreja sempre pediu e trabalhou pela paz, mas os beligerantes recusam
a presença de qualquer mediador. Algumas vezes, os maoístas
atacaram também estruturas católicas, nem tanto por motivos
religiosos, mas porque viam trabalhar pessoal indiano, que a seu parecer,
deve ser expulso do país, em represália ao apoio indiano
ao governo nepalês. Por nossa vez, não temos medo e continuamos
a nossa missão, confiando na ajuda de Deus.
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