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BRASIL: 03/10/2006
Educação
PRESSÃO NÃO DERRUBA RECURSO QUE MANTÉM
PROJETO NA CÂMARA
Recurso do PSDB e do PFL que prevê votação
do projeto de reserva de vagas no plenário da Câmara foi
aprovado. Movimentos e organizações aproveitaram Dia Internacional
Contra a Discriminação Racial para pressionar.
Jonas Valente - Carta Maior
Dia
Internacional pela Eliminação do Racismo
Organizações defensoras das cotas aproveitaram
a comemoração do Dia Internacional pela Eliminação
do Racismo, no dia 21 de março, para pressionar os parlamentares
pela retirada do recurso do PFL e do PSDB determinando a apreciação
do projeto de cotas para as universidades federais no plenário
da Câmara, antes do encaminhamento da matéria para o Senado
Federal. O esforço, porém, não surtiu efeitos imediatos.
Um acordo de líderes, seguido de uma votação no próprio
plenário, definiu pela aprovação do recurso. Segundo
João Grandão (PT-MS), os governistas teriam aceitado o recurso
com a condição de que o projeto fosse votado assim que chegasse
à Mesa da Câmara. O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), atualmente
na oposição, se comprometeu a apresentar requerimento de
urgência para a matéria e o presidente da Casa, Aldo Rebelo
(PCdoB-SP), teria assumido o compromisso de colocar o projeto o quanto
antes na pauta de votação.
Aprovado em três comissões da Câmara
por unanimidade, o projeto deveria ser enviado normalmente ao Senado (por
ter sido designada em caráter terminativo, a matéria não
precisaria passar pelo plenário da Câmara). A proposta precisa
ser aprovada nas duas Casas para que possa ser submetida à sanção
presidencial. “A matéria é importante e merece maior
aprofundamento da discussão”, argumentou o líder tucano
Alberto Goldman (SP). Para Sérgio Custódio, do Movimento
dos Sem Universidade (MSU), a protelação no trâmite
do projeto é resultado de pressão dos grandes empresários
do ensino privado, que teriam forte influência sobre uma parcela
considerável de parlamentares por sua condição de
grandes doadores de campanhas eleitorais.
O Projeto
de Lei
O Projeto de Lei (PL) 73/99, de autoria da deputada Nice
Lobão (PFL-MA), estabelece que as Instituições Federais
de Ensino Superior (IFES) devem reservar 50% de suas vagas a estudantes
de escola pública, respeitando nas suas matrículas a proporção
de negros e indígenas existente na região atendida pela
instituição. Para avançar pelas comissões,
alguns obstáculos tiveram de ser superados. Inicialmente, os reitores
reclamavam do tempo de implantação do novo sistema, previsto
para quatro anos, alegando que não haveria como incorporar as mudanças
no período estabelecido de transição. As entidades
cobravam a manutenção do prazo e a verba suficiente para
garantir também a permanência dos alunos beneficiados pelo
sistema de cotas. Em fevereiro, o Ministério da Educação
(MEC) fechou um acordo com as partes (leia: Acordo sobre cotas na graduação
é só um passo para recuperar atraso). O prazo para a implantação
das cotas foi estendido para seis anos, com percentual mínimo de
12,5% já em 2007, e o ministério se comprometeu a aportar
os recursos necessários para garantir a implantação
e viabilizar a assistência estudantil para os estudantes.
UNIVERSIDADE
BRANCA
Antes da peregrinação feita por organizações
ligadas ao movimento negro e dos sem universidade, foi realizado um debate
no Senado sobre o tema, organizado por Paulo Paim (PT-RS). Diversas autoridades
e militantes da área aproveitaram o evento para reforçar
a defesa do projeto 73/99 e os questionamentos contra os críticos
da idéia de cotas para negros nas universidades federais. A crítica
dos palestrantes se concentrou no desmonte da idéia de que as cotas
fariam a universidade perder sua qualidade pela redução
do nível dos alunos. “O argumento de que o estudante cotista
vai diminuir a qualidade é falso, as ações afirmativas
enriquecem a universidade, e não enfraquecem. A qualidade é
responsabilidade dos professores, e não dos alunos”, disse
Timothy Mullholand, reitor da Universidade de Brasília, uma das
primeiras instituições a adotar voluntariamente cotas para
estudantes negros.
Pesquisa
Pesquisa mostrada pelo Frei David Santos, da organização
Educafro, mostrou que na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)
o desempenho de um grupo de alunos cotistas analisados ao final do primeiro
ano na instituição foi melhor do que os não cotistas.
“A universidade Harvard [nos EUA] implementou nos anos 60 ações
afirmativas com recorte racial não só para alunos, mas também
para professores e não teve qualquer perda no seu prestígio”,
adicionou Mullholand. A posição foi endossada por Allyne
Andrade, aluna cotista da UERJ. “Estudantes cotistas estão
para provar que sua presença não piora a qualidade das universidades.
Isso é visão racista de um país que se nega há
118 anos por opção política a não enfrentar
o problema da desigualdade social e racial”.
Para a estudante, os resistentes às cotas têm
receio de mudanças no modelo excludente e racista da universidade
brasileira hoje. Esta realidade pode ser comprovada pelos dados referentes
às principais escolas e aos cursos mais concorridos. Segundo Custódio,
do MSU, em cursos tradicionais como arquitetura, engenharias, direito
e medicina, o índice de estudantes brancos, ricos e provenientes
de escola pública varia entre 80% e 94%. Dados apresentados por
Allyne mostram que cerca de apenas 890 mil dos cerca de 3 milhões
de estudantes que estão hoje no ensino superior são negros.
Bem abaixo da proporção de negros e pardos verificada na
sociedade, cerca de 45% segundo o último censo do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE).
Exclusão
Racial no Brasil
A situação piora muito se considerados
os professores. De acordo com levantamento feito por José Jorge
Carvalho, do departamento de Antropologia da UnB (leia também:
"Exclusão racial no Brasil é uma das mais escandalosas
do planeta"), apenas 1% dos professores do ensino superior público
é negro, e o índice piora na elite das instituições
públicas. “Se juntarmos as seis principais universidades
públicas do Brasil (Universidade de São Paulo, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Estadual de Campinas, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade
de Brasília), o número cai para 0,4%. É muito pouco.
Isso não tem paralelo no mundo. É um dos sistemas de exclusão
racial mais escandaloso do planeta”, afirma. Para provar ao Parlamento
que as cotas são importantes ações de inclusão
e que não é possível permanecer com um quadro tão
desigual, os integrantes de movimentos pretendem utilizar os exemplos
que se multiplicam a cada ano. Segundo frei David Santos, 30 universidades
em todas as regiões do país já adotam sistema de
reservas de vagas. A formatação das cotas varia, atendendo
em maior ou menor grau estudantes de escolas públicas, negros e
indígenas.
Exemplo é a UnB, cuja reserva é de 20%
das vagas para estudantes que se autodenominarem negros. Na mesma linha,
a Universidade Estadual da Bahia destina 40% das cotas para negros oriundos
da rede pública, a Universidade Federal do Pará (UFPA) reserva
50% para alunos da rede pública, sendo 40% para negros, e a Universidade
Federal do Paraná (UFPR) coloca 20% de vagas para estudantes de
escola pública e 20% para alunos negros. Outro argumento muito
questionado durante a audiência foi o de que as cotas seriam inconstitucionais,
pois feririam a igualdade resguardada pela Constituição
Federal. “A igualdade ‘perante a Lei’ é meramente
formal e não exaure a totalidade deste conceito por não
abranger a dimensão material da igualdade. A Constituição
de 1988 consagra a mudança de paradigma que reconhece a desigualdade
não apenas em seu aspecto formal, com a penalização
da discriminação, mas também na sua dimensão
material, ao estabelecer como obrigação do Estado promover
a igualdade real da população”, disse Renato Ferreira,do
Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da UERJ.
Fonte: www.agenciacartamaior.uol.com.br
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