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EMBRIÃO
HUMANO: sujeito
ou objeto - 10/08/2007
EMBRIÃO
MUDA DE FORMA, NÃO DE SER
(Entrevista com Pe. Giovanni Cipriani)
Giovanni Cipriani
– nascido na Itália em 1945 – é religioso passionista.
Foi ordenado sacerdote em 1974. É doutor em Psicologia pela Universidade
La Sapienza de Roma e em Teologia Moral (na área de bioética)
pela Faculdade Teológica Angelicum de Roma, com a tese Esta¬tuto
ontológico e ético do embrião humano. Desde 1999
trabalha no grupo missionário passionista de Minas Gerais. Atualmente
é pároco e reitor do Santuário São Paulo da
Cruz no Barreiro, Belo Horizonte (MG). Ao longo deste ano, o Legislativo
federal discutiu uma lei que regulamenta o aborto. Há algum tempo,
em vários lugares vem sendo distribuída a "pílula
do dia seguinte" para o "planejamento familiar". Em ambos
os casos, o que está em consideração é a vida
- e vida humana que é destruída, um homicídio. Para
tratar da temática do embrião humano, Giovanni Cipriani
fez-nos chegar espontaneamente a seguinte entrevista.
Vida
Pastoral (VP): Qual o papel da bioética no mundo atual?
Pe.
Giovanni: A bioética é uma ciência nova,
que expressa aquela parte da moral ou ética chamada a refletir
sobre a vida da pessoa desde o início de sua fecundação
até sua morte. Seu papel é orientar o progresso científico,
para que ele se torne um benefício à humanidade inteira,
e não apenas a parte dela; defender e promover a dignidade da pessoa,
não somente no âmbito biomédico, mas também
em outros âmbitos, como a educação sanitária,
a economia; a política, a ecologia etc. Por isso, a bioética
interessa-se em compreender quais as conseqüências das intervenções
que o homem cumpre no campo da vida animal e vegetal, à medida
que estas podem repercutir sobre a saúde humana e trazer desequilíbrio
ao meio ambiente.
VP:
Quais são, hoje, os principais temas da bioética?
Pe.
Giovanni: Hoje, o desafio principal, o tema principal dessa discussão,
é a preocupação da bioética em definir o estatuto
ontológico do embrião humano, ou seja, definir se o embrião
humano é pessoa desde a fecundação. Outros problemas,
como a clonagem, as células estaminais, a ética da pesquisa,
a ecologia etc., estão ligados à solução e
definição do estatuto do embrião humano:
VP:
Há quem acuse a Igreja católica de, uma vez mais, estar
dificultando o avanço das ciências e até impedindo
a cura de doenças de cunho genético. O que dizer disso?
Pe.
Giovanni: Para a abordagem adequada dessa questão, são
necessários dois esclarecimentos. Primeiro, não é
apenas a Igreja católica que é contra qualquer intervenção
que não respeite a dignidade do embrião humano, mas também
outras Igrejas e a maioria dos embriologistas e cientistas. Segundo, a
Igreja católica promove a tutela e a defesa do embrião humano
não apenas partindo dos dados da Bíblia e da teologia, mas
dos mais recentes resultados da biologia. Se um dia essa ciência
concluísse que "biologicamente" o embrião humano
torna-se indivíduo não no momento da fecundação,
mas somente depois, a Igreja poderia rever sua posição.
VP:
Atualmente, qual é a posição da Igreja a respeito
do embrião humano?
Pe.
Giovanni: A Igreja, como dizia antes, tem em séria consideração
o que diz a biologia. Da biologia sabemos que a intensa atividade de interação
entre os cromossomos das células germinais, logo após a
penetração do espermatozóide no óvulo, estabelece
uma mistura do patrimônio genético que constitui, desde o
primeiro momento, a identidade genética do zigoto (genoma). Para
a genética, o EU de uma pessoa já nascida é o que
era naquele momento. Fazendo-se
uma completa análise biológica, conclui-se que o embrião
humano vivo é, a partir da fusão dos gametas, um sujeito
humano com uma identidade bem definida, que começa, a partir daquele
instante, o seu próprio desenvolvimento "interno ", coordenado,
contínuo e gradual, de tal forma que, em nenhuma etapa posterior,
se pode considerá-lo como um simples aglomerado de células.
O novo ser (embrião) é distinto de sua mãe, e não
uma parte do seu corpo; é constituído de sistemas e órgãos
distintos do organismo materno, com quem mantém uma associação
harmônica; é possuidor de um dinamismo autônomo; a
mãe é necessária para lhe proporcionar nutrição,
mas é o embrião quem, de acordo com o seu código
genético, especifica as suas próprias pro¬teínas,
diferentes das proteínas maternas; e a gestante, por sua vez, não
determina o controle inter¬no do embrião nem sua diferenciação.
Durante a gestação, o embrião muda de forma, mas
não de "ser".
VP:
No entanto, há cientistas sustentando que o embrião humano,
no momento da fecundação, ainda não é pessoa.
Eles não partem dos mesmos dados da biologia?
Pe. Giovanni:
Nesse caso, a questão é mais filosófica do que biológica.
Hoje, ninguém contesta os dados da biologia. Os que reconhecem,
ou não, ao embrião humano o "estatuto ontológico"
de pessoa partem de uma visão filosófica diferente.
Nesse
sentido, podemos sintetizar:
a) há
uma concepção humanística ou substancialista, de
tipo ontológico e ético;
b) uma concepção
naturalista, de tipo funcionalista.
Os defensores
da posição humanística identificam a pessoa com o
ser humano (ou seja, todo ser humano é pessoa).
Os defensores
da posição naturalista atribuem o "ser pessoa"
somente a quem está em grau de fazer certas operações;
em conseqüência, seres humanos, animais e máquinas,
nesta concepção, podem ser ou não pessoas; segundo
sejam caracterizados por atos indicadores do ser pessoa - por exemplo:
- capacidade
de pensar e refletir.
O problema,
então, é muito mais complexo e não apenas para o
embrião humano, pois a afirmação de que é
pessoa somente quem tem consciência e/ou autocinsciência significa
que deveríamos excluir da categoria pessoa homens e mulheres que
não estão em condições de exercer tal função
– por exemplo, os que estão em estado de coma e os anencéfalos.
E, por outro lado, deveríamos admitir na categoria de pessoa quem,
mesmo não sendo ser humano, está em grau de exercer tal
função – como animais e robôs. Imaginemos as
conseqüências dessa concepção filosófica!
Mas, infelizmente, não é necessário muito esforço
de imaginação para entender o que está acontecendo
nas clínicas para doentes terminais e idosos do norte da Europa.
Isso não é resultado dessa filosofia?
VP:
Fixando-nos no embrião humano:
- além
das posições lembradas, há outras? E quando entendem
que um embrião passa a ser pessoa?
Pe.
Giovanni: Como lembramos, para a maioria dos cientistas, o embrião
humano é pessoa desde o momento da fecundação, pois
é ali que se constitui o genoma, que poderíamos chamar de
caixa-preta do ser humano, pois contém todas as informações
do indivíduo. Para os defensores da filosofia naturalista de tipo
funcionalista, ao contrário, o embrião humano tornar-se-á
pessoa somente a partir do momento em que se estabelece uma relação
mãe-embrião, com o implante do embrião na parede
uterina do corpo materno (6.° dia depois da fecundação);
no momento da formação da estria embrionária (14.°
dia depois da fecundação); a partir da formação
do sistema nervoso central (6a-8a semana de gestação) ou
do córtex cerebral (8a semana de gestação). Além
desses, há os que teorizam a imprescindibilidade da razão,
entendida como exercício efetivo (portanto, no sentido máximo),
para a definição da pessoa. Tal teoria identifica a pessoa
apenas na fase da vida humana pós-natal, no momento da aquisição
da autoconsciência ou no momento da manifestação da
capacidade de intelecção e de autodeterminação
(portanto, da capacidade de entender e querer).
VP:
Mas, então, os defensores da filosofia naturalista e da
imprescindibilidade da razão não se limitariam a excluir
da categoria pessoa apenas os embriões humanos...
Pe.
Giovanni: Essas teorias, além de excluir do "estatuto
ontológico e ético" de pessoa o embrião humano,
o feto e o recém-nascido, excluem também o menor de idade,
o idoso, os doentes terminais e cerebrais etc.
Trata-se de
teorias funcionalistas "atualistas", que fazem coincidir o "ser
da pessoa" com o exercício atual de determinada capacidade.
O erro
está no hipostasiar abstratamente uma função:
- cada função
necessita necessariamente de um sujeito ontológico, isto é,
de uma pessoa que - de modo parcial ou acidental - a atualiza. Não
existe a função sem o sujeito que a exercita. Além
disso, se fosse verdadeira a coincidência entre pessoa e função
(autoconsciente, racional, volitiva), também o indivíduo
humano adulto, enquanto dormisse ou estivesse bêbado (ou, de qualquer
modo, o indivíduo que manifestasse a intermitência ou a suspensão
momentânea das capacidades requeridas para a atribuição
do estatuto pessoal) não seria pessoa.
VP:
Essas teorias não alimentam novas formas de discriminação?
Pe.
Giovanni: Claro. O problema não se refere apenas ao embrião
humano. Há um dado igualmente grave que merece atenta consideração:
a noção de pessoa, arrancada das suas raízes (pessoa
ontológica), assume hoje novos sentidos que põem em perigo
a vida mesma.
Isso se dá
a tal ponto que, após os fenômenos da escravidão,
do colonialismo, do racismo e do machismo, nos encontramos agora diante
de nova forma de discriminação humana, mais sutil e escondida,
pois atinge os casos-limite:
- a discriminação
contra zigotos, embriões, fetos e também contra recém-¬nascidos,
crianças, deficientes físicos e/ou mentais, idosos, os que
estão em estado de coma e doentes incuráveis. No passado,
diversos grupos humanos não foram reconhecidos como pessoas; ao
contrário, foram considerados como "seres selvagens",
uma subespécie da raça humana e inferiores às pessoas
humanas. Essa situação gerou preconceitos e discriminações
que levaram às sevícias e ao extermínio desses povos.
O obstáculo estava no conseguir reconhecer e atribuir a qualidade
de ser, de pessoa, de gente e de dignidade humana àquelas criaturas
de aspecto racial tão diferente, embora membros da mesma espécie
humana. O nosso problema diante do embrião é o mesmo. Devemos
conseguir reconhecer a qualidade de gente e de dignidade humana àquela
pequena criatura chamada "embrião", que, embo¬ra
morfologicamente tão diferente de nós, já é
um membro da nossa espécie.
VP:
Quem nega os direitos do embrião humano não estaria se pondo
numa posição anticultural?
Pe.
Giovanni: A maneira de as teorias funcionalistas considerarem
ou entenderem o embrião (seria pessoa somente quem está
em grau de exercer certas funções, como a sensibilidade,
a racionalidade e a vontade) fazem com que seja introduzida na categoria
"pessoa" uma exclusão e uma graduação.
Ou seja, para essas teorias, nem todos os seres humanos são pessoas
e nem todas as pessoas detêm o mesmo grau, mas há quem seja
mais quem seja menos pessoa. Essa visão reconduz-nos às
épocas em que vigorava, por exemplo, a escravidão -escravo
era tido como ser humano, mas não como pessoa, no sentido jurídico
- ou o racismo, em que o ser humano de raça presumida "inferior"
tinha menos direitos do que a raça privilegiada. O mesmo fato pode
ser verificado no machismo, que reconhece a mulher como um ser humano,
mas não lhe concede acesso à plenitude dos direitos. São
todos exemplos de "graduação".
VP:
Porque, para tantos, é tão difícil admitir que um
minúsculo ser humano - que chamamos "embrião"
ou "feto" - seja pessoa?
Pe.
Giovanni: Sem dúvida, atrás da engenharia genética
há interesses econômicos inimagináveis - e não
apenas a vontade de beneficiar á humanidade com novas descobertas!
É normal que quem está interessado em efetuar experimentos
com o embrião deve ter a opinião pública do seu lado,
demonstrando que o embrião humano não é pessoa. Trata-se
de um processo que poderíamos chamar de "desumanização".
VP:
E como poderia ser melhor entendido esse"processo de desumanização"?
Pe.
Giovanni: Há bastante tempo a psicologia vem defendendo
que, para conseguir cometer ações violentas contra os outros,
é preciso considerá-los como objetos, e não como
pessoas.
Por
exemplo: lembremos o que aconteceu, há algum tempo, com
prisioneiros iraquianos: é possível que um soldado esteja
rindo, enquanto tortura pessoas (ainda que tidas como inimigas?)
Outro
exemplo:
- tem-se notícia
de que, anualmente, estão sendo traficadas milhares de crianças.
Parte delas é submetida ao transplante de órgãos.
Nos países mais pobres, cada vez mais, há mulheres induzidas
a doar seus filhos recém-nascidos – havendo casos em que
essas crianças serão usadas para a doação
de órgãos. Como é possível tudo isso? Somente
através do processo de desumanização. Ou seja, quando
estamos convencidos de que um ser humano é menos pessoa do que
o outro, atua em nós o processo de desumanização,
que consiste no rebaixamento da dignidade humana do adversário
a fim de legitimar a violência sobre ele e a sua destruição.
De fato, em geral, a opinião pública desaprova a agressividade
contra quem tem a mesma dignidade do agressor. Mas, se o agressor consegue
convencer a opinião pública de que o inimigo é menos
humano do que ele, que o inimigo é quase-pessoa, ele obterá
a aprovação da maioria para agir.
Várias
podem ser as justificativas para construir as categorias de quase pessoa
ou de subumanidade:
- o sexo, a
religião, o grau de civilização, o nível social
etc. Normalmente a desumanização é um pro¬cesso
adotado pelos regimes autoritários ou ditatoriais para perseguir
as minorias. Foi utilizado, por exemplo, pelos colonizadores, para favorecer
a escravidão, e pelos nazistas contra os judeus.
VP:
No que se refere ao aborto, estaríamos hoje diante de um processo
de desumanização?
Pe.
Giovanni: Certamente. Há algum tempo, no final de uma
palestra, alguém me perguntou:
"Como
é possível que determinada pessoa se torne violenta, torturadora,
homicida... tendo a consciência tranqüila?" Resposta:
- antes de
tudo, negando a humanidade do outro. O resto não é difícil.
É o que está acontecendo com o aborto. Nenhum dos defensores
do aborto fala que o embrião humano é gente. Os abortistas
querem convencer a opinião pública do contrário.
Penso que nós, católicos, que sempre defendemos a vida humana,
juntamente com os homens e mulheres de boa vontade, deveríamos
motivar uma reflexão mais profunda e mais ampla sobre a dignidade
da pessoa desde a fecundação até a morte.
CNBB
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