A Igreja no Mundo
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Misturando fé e ciência: 04/04/2007 Ciência e fé cristã têm uma longa e, em muitos momentos, sangrenta rivalidade histórica, gerada pela disputa da prerrogativa de explicar a nós mesmos o mundo e aquilo que somos. Apesar de existirem motivos históricos para essa inimizade, não é verdade que ciência e fé sejam coisas incompatíveis. Aliás, a rivalidade pode ser explicada como um imenso equívoco, gerado pela intolerância de ambas as partes, que é afirmar que há uma única verdade possível (invariavelmente, estabelecemos que a verdade que nós adotamos é a única correta). Por muitos séculos, só a religião era suficientemente estruturada para desempenhar a função de explicar o mundo. Assim, ela tornou-se hegemônica e dona da única verdade possível, determinando os espaços que a fé podia ocupar. A fé não devia, por exemplo, existir em um mundo onde os mistérios de como o nosso corpo funcionava fossem revelados. O mistério era o lugar onde Deus habitava e, portanto, só nos restava crer que aquilo que não compreendíamos pertencia a Deus – invadir o território exclusivo dEle com microscópios e telescópios era destruir o mistério, ir além do que a fé permitia. O "habitat" da fé era continuamente mantido e protegido pelos dogmas da igreja. No entanto, as transformações sociais e culturais resultantes do Renascimento propiciaram o desenvolvimento de uma nova forma de explicar o mundo em que vivemos. A produção de conhecimento através desse método era a ciência moderna, que começava a dar os seus primeiros passos. Baseava-se na tentativa de se demonstrar a validade de uma hipótese qualquer. Para determinar se uma idéia era aceitável, fazia-se um teste. Por exemplo, era possível demonstrar que o ar é necessário para a chama de uma vela existir. Se a vela queimasse em um recipiente onde o ar fora retirado, a hipótese seria rejeitada; ou seja, o ar não seria essencial para a chama da vela. Por outro lado, se a chama se apagasse, a idéia inicial não podia ser rejeitada, e, portanto, devia ser verdadeira, pelo menos até que alguém fizesse outro teste e demonstrasse o contrário. Assim, a ciência conseguiu criar um sistema em que a verdade poderia ser investigada e testada, e não somente aceita passivamente pela fé. A ciência tornava-se, então, concorrente da Igreja como guia para se compreender a vida. Infelizmente, nem a ciência nem a Igreja perceberam que se tratavam apenas de maneiras diferentes de se entender o mundo que vivemos. A Igreja passou a combater a ciência, porque esta invadia os espaços sagrados dos mistérios da fé e colocava em xeque o mundo concebido a partir dessa fé. Depois, quando a Igreja se enfraqueceu, a ciência passou a rejeitar a fé, considerando-a ultrapassada, obscurantista, supersticiosa. A arrogância da ciência tenta nos convencer de que ela é capaz de revelar os mistérios todos e determinar a verdade absoluta; a fé intolerante acredita que pode decretar uma verdade estática, imutável, e deixar o desconhecido fora do alcance dos homens. Contudo, é possível que a ciência e a fé auxiliem uma a outra. Ainda que sejam como óleo e água, por causa da sua essência, vale lembrar que óleo e água às vezes se misturam, se soubermos fazer uma emulsão: uma gema de ovo consegue unir a água e o óleo, como sabem as pessoas que já fizeram uma maionese. As descobertas da ciência podem nos ajudar a descobrir novos espaços para a nossa fé, lugares onde nunca imaginávamos que Deus estivesse. Hoje, precisamos encontrar Deus em um mundo onde as distâncias são cada vez menores, um mundo em que conseguimos enxergar coisas minúsculas, partículas subatômicas e onde os milagres são cada vez menos milagrosos porque, muitas vezes, conseguimos explicá-los com o nosso conhecimento humano. A fé também ajuda a ciência: - sem a consciência – que é um outro conhecimento que anda junto com o da ciência – de algo sobrenatural, de algo que está entre nós e não pode ser explicado, a ciência torna-se arrogante. A fé também fornece parâmetros de moralidade que, embora não devam ser absolutos, impedem que a ciência perca os horizontes mais altruístas e virtuosos. A fé faz a ciência mais humana, menos onipotente e mais cuidadosa. O desafio é como fazer a fé e a ciência interagirem sem que uma canibalize a outra. Para isso, nos próximos artigos, vou propor alguns caminhos possíveis, tanto para a fé cristã como para a ciência. Tiago Chiavegatti é formado em biomedicina pela UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), onde atualmente faz mestrado em Farmacologia. Sua área de pesquisa envolve sinalização celular e células tronco musculares. É também escritor — publicou A Pedinte Romena, além de contos e poesias no site www.tiagochiavegatti.cjb.net — e membro da Igreja Presbiteriana Independente do Cambuci.
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