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BRASIL: 18/04/2008
Fome
Soberania alimentar e fome indígena
O Palácio do Itamarati está sendo palco
de um evento marcante, onde estão sendo debatidos pelos movimentos
sociais e sociedade civil, os grandes desafios enfrentados na America
Latina e Caribe, particularmente no tocante à questão de
segurança e soberania alimentar. É um debate muito oportuno
e necessário no momento em que os pobres e a fome aumentam no mundo.
Não pela falta de alimentos, mas pela por estarem estes transformados
em mercadorias e comodites de especulação, controlados por
uns poucos grupos multinacionais. O grito, as denúncias, a resistência
e a esperança se entrecruzam nos corredores e amplos espaços
do Palácio do Itamarati, em Brasília. Neste mesmo lugar
vai acontecer o encontro dos representantes dos governos, na 30.ª
Conferencia Regional da FAO, na próxima semana.
Na mística de abertura foi denunciado o trabalho
escravo, principalmente nas usinas de sucroalcoleiras e a brutal acumulação
de riquezas às custas das vidas e da fome da maioria da população.
O otimismo do discurso do ministro Guilherme Cassel, do MDS, dizendo que
“estamos vivenciando o fim do ciclo neoliberal” foi rapidamente
sendo desfeito com as inúmeras denúncias de violência,
destruição e fome na America latina e Caribe. Um dos representantes
de Colômbia disse, que ao contrário do afirmado, o neoliberalismo
no mundo parece mais feroz e cruel do que nunca. “Ferida a fera
ou o monstro está cada vez mais feroz”. Os povos indígenas
são os que mais sofrem as conseqüências desse sistema
bárbaro. Secularmente foram submetidos a processos de extermínio
e dominação. Hoje são os que mais sofrem com a continuidade
da invasão e saque de suas terras. Existe um crescente empobrecimento
das comunidades indígenas, com grande aumento da fome e subnutrição.
Os povos indígenas e a fome de justiça
Dentre os 120 delegados de 33 países, estão
uns 15 indígenas. Do Brasil está uma Makuxi, do movimento
de mulheres indígenas de Roraima (OMIR) e um Tupinikin, representando
o movimento indígena do nordeste, Espírito Santo e Minas
Gerais (APOINME). Depois de falarem das lutas e da falácia das
políticas de proteção a seus direitos, pediram aos
participantes da Conferência, solidariedade e apoio. O representante
do povo Kuna, do Panamá, falando das lutas desde o coração
da terra conclama para a construção de um novo Estado Plurinacional,
soberano e intercultural. Um dos participantes da Bolívia pediu
apoio e solidariedade para os Guarani que tem seus territórios
invadidos pelos fazendeiros.
A Bolivia de revolucionários, onde os povos originários,
que são a grande maioria da população, continuam
cuidando da natureza, da mãe terra – Pachamama, seguem em
frente na construção de uma nova Bolivia. Magdalena Sarat,
Maia de Guatemana, representante das mulheres vítimas de conflitos
internos, falou da dura repressão e violência que os indígenas,
que são mais de 70%, estão sofrendo, com a criminalização
e prisão de inúmeros indígenas. Nos consideram terroristas
por que estamos lutando por nossas terras e direitos. Concluiu dizendo
“o desenvolvimento que queremos é conforme a nossa cosmovisão
e identidade de nossos povos. Jorge Miskito, de Nicarágua, fez
um emocionante relato do processo de lutas que tiveram em seu país
e as dificuldades de entenderem a complexidade da visão dos não
índios e suas propostas de vida e organização política
e econômica.
Porém ressaltou que os povos indígenas
hoje estão se articulando e organizando em redes, desde as comunidades
até em nacional e internacional. Mostrou como é difícil
hoje viverem conforme a perspectiva indígena. Houve várias
falas, depoimentos, testemunhos fortes e emocionados que muito marcaram
os participantes, que retribuíram com intensos aplausos. Um dos
depoimentos mais contundentes foi trazida por Celia, Kechua da Bolivia.
Mostra a conquista que estão consolidando em seu pai “Agora
deixamos no passado o estado colonial e todos e todas estamos no fato
histórico ao direito Plurinacional, Comunitário, livre,
independente, soberano, democrático, intercultural, descentralizado
e com autonomias”.
Terminam o documento na certeza de que a nova Constituição
seja não só referendada, mas aplicada na prática
“apoiamos o trabalho e processo Revolucionário que vem liderando
nosso irmão indígena e Presidente dos Bolivianos e Bolivianas,
Evo Morales Ayma”. A conferência prossegue hoje com os debates
sobre Reforma Agrária e Soberania Alimentar e sobre reforma de
sistema das nações unidas. Amanhã será discutido
e aprovado o documento da Conferência Especial pela Soberania Alimentaria,
pelos direitos e pela Vida, que será levado à Conferência
oficial da FAO.
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