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BRASIL: 25/04/2008
Indígenas
Raposa Serra do Sol uma ekite sem argumentos
A utilização de bombas de fabricação
caseira, a queima de pontes, atentados e ameaças a lideranças
e comunidades indígenas pelos fazendeiros para se manterem ilegalmente
na Raposa Serra do Sol, numa clara afronta ao estado democrático
de direito, curiosamente não mereceu a condenação
de muitos comentaristas e articulistas da grande imprensa. Pelo contrário,
passaram a justificar esses atos de insubordinação, repetindo
a exaustão os argumentos, completamente vazios e eivados de preconceito,
de uma pequena elite de privilegiados contra a demarcação
dessa terra indígena. De forma tendenciosa e através da
insistência, tentaram conseguir a adesão da opinião
pública para a causa mesquinha daqueles que a custa da exploração,
da intimidação e da violência querem continuar se
locupletando e exercendo a dominação econômica e política
em Roraima.
Um desses argumentos é de que a demarcação
de terras indígenas nas regiões de fronteira significaria
um risco à soberania, porque os índios aliando-se a interesses
externos poderiam dar um golpe no país, declarando a independência
sobre esses territórios. Quem repete esse argumento, se não
estiver usando de má fé, certamente está mal informado,
porque essa hipótese não passa pelo imaginário de
nenhum povo indígena, mesmo daqueles mais abandonados, onde a presença
do estado é tímida ou inexistente. Também os generais
sabem disso. Trata-se por isso de uma estratégia ardilosa de condenação
dos índios, para confiscar-lhes suas terras. Não difere
muito da forma utilizada durante o período colonial, quando, para
justificar a chamada “guerra justa”, se acusava os índios
de praticarem delitos, toda vez que existia o interesse de avançar
sobre suas terras e de buscar mão-de-obra escrava.
Outro argumento é de que as terras indígenas
inviabilizariam o desenvolvimento do estado de Roraima. Associada a esse
argumento afirma-se que o estado perderia 50% de suas terras. A pergunta
óbvia que deve se fazer é de que desenvolvimento estão
falando e quem se beneficia dele. É o desenvolvimento em função
de 6 fazendeiros que se instalaram de má fé na Raposa Serra
do Sol, a partir de 1994, quando os limites dessa terra indígena
já haviam sido publicados e que tem como base o monocultivo do
arroz produzido a custa do envenenamento dos rios por agrotóxicos,
ou do desenvolvimento que assegura o direito originário da terra
e a perspectiva de futuro de 09 povos indígenas que constituem
mais da metade da população rural do estado de Roraima?
Que tal se os comentaristas e articulistas da
grande imprensa deixassem de ser tão óbvios nas suas tentativas
de respaldar ideologicamente os grandes interesses econômicos apátridas
e começassem a afirmar em relação a Raposa Serra
do Sol que:
- os povos indígenas, como sua presença
é anterior à criação do Estado Brasileiro,
têm o direito originário às suas terras e que esse
direito é reconhecido pela Constituição Federal,
estando essas terras localizadas no centro ou nas fronteiras do país;
- as terras dos povos Macuxi, Wapixana, Ingaricó,
Taurepang, Patamona da Raposa Serra do Sol foram invadidas e os índios
submetidos a situação de escravos nas fazendas de gado,
alvos de toda sorte de violência e discriminação.
- os povos indígenas de Roraima, a partir da década
de 1970, iniciaram um movimento legítimo de retomada de suas terras
com o apoio da Igreja Católica, somando-se a ele o apoio de outros
setores da sociedade brasileira e da comunidade internacional.
- as autoridades do estado de Roraima sistematicamente
tentaram inviabilizar a demarcação das terras indígenas
e não fizeram isso somente através de discursos inflamados
nas tribunas do Congresso Nacional e da Assembléia Legislativa
do estado.
Foram mais longe. Apoiaram a invasão dos arrozeiros,
que a partir de 1994 se instalaram na área, premiando-os com a
isenção de impostos e buscando respaldar seu lucrativo negócio
com ações na justiça contra os direitos indígenas,
como fazem até hoje. Em 1995, criaram artificialmente o município
de Uiramutã totalmente situado dentro da Raposa Serra do Sol, com
sede na aldeia Uiramutã, invadida por uma currutela de garimpo.
Na tentativa de consolidar esse município, os militares construíram
um quartel inaugurado em 2002. Uma vez instalado o município começaram
a espalhar a notícia mentirosa de que a demarcação
da Raposa Serra do Sol criaria um grave problema social, pois milhares
de pessoas seriam desalojadas da sede municipal quando não passavam
de 115 não-índios, na maioria funcionários municipais.
- 53,07% da população rural de Roraima
é indígena. Segundo a contagem do IBGE de 2007 a população
total de Roraima é de 395.725 pessoas, sendo que destas 88.736
(22,42%) vivem na área rural. Considerando que a população
indígena no interior é de 47.091 pessoas, de acordo com
os dados dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI
Leste/RR e DSEI Yanomami) e do Programa Waimiri Atroari, chega-se a conclusão
que ela soma mais da metade da população rural de Roraima.
- com base nos mesmos dados pode-se afirmar também
que a terra indígena Raposa Serra do Sol, que abrange 7,79% de
Roraima e onde vivem 18.992 índios em 194 comunidades, além
de assegurar as condições de existência futura a 05
povos indígenas, garante terra a 21,4% população
de Roraima que nela vive e trabalha.
Está nas mãos do STF o poder de decidir
a favor ou contra os povos indígenas; a favor da maioria da população
que vive da terra em Roraima ou para beneficiar 06 fazendeiros; pela manutenção
de relações de dominação colonialista que
persistem ao longo do tempo ou por um novo Brasil, justo e plural, onde
o Estado assegura o cumprimento das leis também quando estas beneficiam
os indígenas e limitam o alcance do latifúndio.
Manaus, 23 de abril de 2008.
Francisco Loebens
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