A Igreja no Mundo
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BRASIL: 14/12/2009 A fidelidade ao Deus que se solidariza com os que são excluídos pela sociedade nos impede de permanecer indiferentes ante a marginalização que há anos atinge a maior parte da população indígena do Estado, expropriada e banida de suas terras de origem. Trata-se de uma situação insustentável e iníqua, fruto de uma sociedade de consumo que privilegia o lucro, e cuja solução, adiada indefinidamente, nada faz senão aumentar a angústia e a revolta de todos, colocando em margens opostas cidadãos de uma nação que proclama a igualdade de direitos e de deveres de todos. A relutância em buscar políticas públicas que sanem, de uma vez por todas, o clima de desespero e de ódio entre produtores rurais e índios, faz com que cresça, a cada ano que passa, o número de vítimas, outorgando ao nosso Estado o triste primado de mortes de pessoas indefesas, que lutam para sobreviver em meio ao descaso e à perseguição que as cercam de todos os lados - mortes e assassinatos que normalmente atingem os indígenas, não os donos de fazendas. E já que no Brasil nada se consegue senão com pressão, quando os índios se atrevem a buscar seus direitos, são tratados e eliminados como animais por milícias e seguranças a serviço do agronegócio, ou acabam apodrecendo anos a fio em nossos presídios, já que são cada vez mais raros os advogados que ousam tomar a sua defesa. "A paz é fruto da justiça", lembrava a Campanha da Fraternidade promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil na quaresma desse ano. Contudo, a justiça só é verdadeira e completa quando engloba também os indígenas, sujeitos dos mesmos direitos dos demais cidadãos brasileiros. Com isso, não estamos nos posicionando contra os produtores rurais (sobretudo os pequenos agricultores), que adquiriram suas terras legalmente e as cultivam com o suor de seu rosto. O que afirmamos é que não se pode prolongar um estado de coisas que, além de nos humilhar perante a opinião pública mundial, é uma tremenda injustiça que se comete contra uma multidão de brasileiros - e a injustiça sempre gera violência! Não cabe a nós, Bispos, indicar soluções, pois fogem à nossa competência. A outras instâncias pertence a responsabilidade de conduzir a política indigenista, definindo se se deva optar pela demarcação de terras "ancestrais", como pedem os índios, ou pela compra, por parte do Governo, de propriedades situadas nas cercanias das atuais aldeias indígenas, como sugerem os produtores rurais, ou ainda partir para a utilização de terras devolutas no Estado. De nossa parte, o que não podemos deixar de questionar é se o Brasil, que dispõe de verbas para obras de envergadura em todo o território nacional, não tem também recursos para realizar, de uma vez por todas, as justas expectativas de uma população cada vez mais vulnerável e explorada em sua dignidade. Ao solicitar das autoridades civis e judiciais uma atitude firme e corajosa, fruto do diálogo entre as partes envolvidas, sob a tutela e a garantia do Ministério da Justiça, não somos levados simplesmente por motivos religiosos, mas, antes de tudo, humanos. Nem estamos afirmando que a única exigência para a uma convivência justa e pacífica entre índios e não índios seja dar terra a quem não tem. Junto com ela, o que os índios precisam é das mesmas condições de vida que se oferecem aos demais brasileiros, sobretudo no campo da educação, da saúde, da moradia e do emprego, para que sejam protagonistas de seu desenvolvimento e de sua história. Apraz-nos encerrar com as palavras proferidas por nossos irmãos, os Bispos da América Latina, reunidos em Aparecida, em maio de 2007: "Nosso serviço pastoral à vida plena dos povos indígenas exige que anunciemos Jesus Cristo e a Boa Nova do Reino de Deus; que denunciemos as situações de pecado, as estruturas de morte, a violência e as injustiças internas e externas; e que fomentemos o diálogo intercultural, interreligioso e ecumênico. Jesus Cristo é a plenitude da revelação para todos os povos e o centro fundamental de referência para discernir os valores e as defi¬ciências de todas as culturas, incluindo as indígenas. Por isso, o maior tesouro que podemos oferecer a eles é que cheguem ao encontro com Jesus Cristo ressuscitado, nosso Salvador". (Documento de Aparecida, 95). Campo Grande, 12 de dezembro de 2009 Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira dos povos indígenas
Apocalipse Agora O fim do mundo sempre me pareceu algo muito longínquo. Até um contrassenso. Deus haveria de destruir sua Criação? Hoje me convenço de que Deus nem precisa mais pensar em novo dilúvio. O próprio ser humano começou a provocá-lo, através da degradação da natureza. Os bens da Terra tornaram-se posse privada de empresas e oligopólios. A causa de 4 bilhões de seres humanos viverem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecer fome, é uma só: toda essa gente foi impedida de acesso à terra, à água, à semente, às novas técnicas de cultivo e aos sistemas de comercialização de produtos. A decisão dos EUA e da China de ignorarem a Conferência de Copenhague sobre Mudanças Climáticas torna mais agônico o grito da Terra. Os dois países são os principais emissores de CO2 na atmosfera. São os grandes culpados pelo aquecimento global. Ao decidirem boicotar Copenhague e adiar o compromisso de reduzirem suas emissões, eles abreviam a agonia do planeta. Felizmente, a 25 de novembro o presidente Obama, sob forte pressão, voltou atrás e desdisse o que falara em Pequim. Os EUA, responsáveis por 23% das emissões mundiais de CO2, prometerá em Copenhague reduzir, até 2020, 17% das emissões de gases de efeito estufa; 30% até 2025; e 42% até 2030. Por que o recuo? Além da pressão dos ecologistas, Obama deu-se conta de que ficaria mal na foto ignorar Copenhague e comparecer em Oslo, dia 10 de dezembro - quando se comemora o 61.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos - para receber o prêmio Nobel da Paz. Portanto, na véspera estará na capital da Dinamarca. Curioso, todos os prêmios Nobel são entregues em Estocolmo, exceto o da Paz. Por uma simples e cínica razão: - a fortuna da Fundação Nobel, sediada na Suécia, resulta da herança do inventor da dinamite, Alfred Nobel (1833-1896), utilizada como explosivo em guerras. Como não teve filhos, Nobel destinou os lucros obtidos por sua patente a quem se destacar em determinadas áreas do saber. Há uma lógica atrás da posição ecocida dos EUA e da China. São dois países capitalistas. O primeiro, abraça o capitalismo de mercado; o segundo, o de Estado. Ambos coincidem no objetivo maior: a lucratividade, não a sustentabilidade. O capitalismo, como sistema, não tem solução para a crise ecológica. Sabe que medidas de efeito haverão de redundar inevitavelmente na redução dos lucros, do crescimento do PIB, da acumulação de riquezas. Se vivesse hoje, Marx haveria de admitir que a crise do capitalismo já não resulta das contradições das forças produtivas. Resulta do projeto tecnocientífico que beneficia quase que exclusivamente apenas 20% da população mundial. Esse projeto respalda-se numa visão de qualidade de vida que coincide com a opulência e o luxo. Sua lógica se resume a "consumo, logo existo". Como dizia Gandhi, "a Terra satisfaz as necessidades de todos, menos a voracidade dos consumistas". Exemplo disso é a recente crise financeira. Diante da ameaça de quebra dos bancos, como reagiram os governos das nações ricas? Abasteceram de recursos as famílias inadimplentes, possibilitando-as de conservar suas casas? Nada disso. Canalizaram fortunas - um total de US$ 18 trilhões - para os bancos responsáveis pela crise. Eduardo Galeano chegou a pensar em lançar a campanha "Adote um banqueiro", tal o desespero no setor. O planeta em que vivemos já atingiu os seus limites físicos. Por enquanto não há como buscar recursos fora dele. O jeito é preservar o que ainda não foi totalmente destruído pela ganância humana, como as fontes de água potável, e tentar recuperar o que for possível através da despoluição de rios e mares e do reflorestamento de áreas desmatadas. Ecologia vem do grego "oikos", significa casa, e "logos", conhecimento. Portanto, é a ciência que estuda as condições da natureza e as relações que entre tudo que existe - pois tudo que existe co-existe, pré-existe e subsiste. A ecologia trata, pois, das conexões entre os organismos vivos, como plantas e animais (incluindo homens e mulheres), e o seu meio ambiente. Essa visão de interdependência entre todos os seres da natureza foi perdida pelo capitalismo. Nisso ajudou uma interpretação equivocada da Bíblia - a ideia de que Deus criou tudo e, por fim, entregou aos seres humanos para que "dominassem" a Terra. Esse domínio virou sinônimo de espoliação, estupro, exploração. Os rios foram poluídos; os mares, contaminados; o ar que respiramos, envenenado. Agora, corremos contra o relógio do tempo. O Apocalipse desponta no horizonte e só há uma maneira de evitá-lo: - passar do paradigma de lucratividade para o da sustentabilidade. [Autor do romance "Um homem chamado Jesus", lançamento da editora Rocco para o Natal 2009. Copyright 2009 - FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato - MHPAL - Agência Literária (mhpal@terra.com.br)] Frei Betto - Adital * Escritor e assessor de movimentos sociais Vida, Vida em Abundância! "Eu sou uma das vítimas do massacre. Eu sou José Martins da Silva e estive naqueles acontecimentos". Ele falava do que ocorreu em 7 de outubro de 1963, na Usiminas, em Ipatinga, MG, quando a repressão a uma greve de metalúrgicos resultou em dezenas de mortos e feridos. Falei: "O senhor, que está hoje aqui, continua a cuidar da vida com espiritualidade, ecologicamente e numa economia solidária." Foram quase 4 mil participantes vindos de todas as partes do país: trabalhadores/as, religiosos/as, donas de casa, juventude, deputados/as, prefeitos/as e vice-prefeitos/as, vereadores/as, lideranças e militantes sociais. O 7.º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, em Ipatinga, 28/29de novembro, com o tema CUIDAR DA VIDA: ESPIRITUALIDADE, ECOLOGIA E ECONOMIA, foi um encontro cheio de alegria, entusiasmo, emoção, liturgia e mística (Informações: www.fepolitica.org.br). Foi um encontro de cristãos, ecumênico, desde sua preparação, a participação nos painéis de reflexão e nas plenárias temáticas, com todas as vozes, os cantos e os hinos, a comunhão. Foi um encontro de acolhida e festa. Comunidades e famílias reclamaram porque não tiveram a quem hospedar na noite de sábado. Pe. Mirim e equipe de animação fizeram muitos chorar, quando cantaram "Canta comigo./ Cante esta canção,/ pois cantando sonharemos juntos/ pra fazer o mundo mais irmão./ Eu quero acreditar na vida,/ ver o sol em cada amanhecer,/ ter no rosto um sorriso amigo,/ acreditar que o sonho é pra valer", o hino do grande poeta e cantador Zé Martins, falecido em outubro de 2009 em Pouso Alegre, MG. Ou na bela Planeta Água, de Beto Guedes: - "Terra, Planeta Água.../Terra, Planeta Água". Ou no hino do Encontro de Cláudio Vereza e Raquel Passos: - "Chegou o Sétimo!/ O Sétimo Encontro nacional!/ Em Ipatinga!/ Nesse encontro a alegria é geral!/ Fé e Política unidas: - evento fraternal!/ Onde a partilha é filha de um mundo mais igual!/ Vou cultivando a fé, mas também o mundo real./ Na economia e ecologia, uma Terra mais igual!/ Estamos no Sétimo; a crise não é o final./ É, na verdade, a crise do capital./ Por isto, agora, é hora de um mundo mais igual!" Todos pediram PAZ no lançamento da Campanha Nacional contra a Violência e o Extermínio de Jovens pela Pastoral da Juventude: Chega de Violência e Extermínio de Jovens (informações: contraviolencia.pjb@gmail.com - www.juventudeemmarcha.org). Disse Jesus: "Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância" (Jo 10, 10). Os debates, as reflexões analisaram a crise econômico-financeira, social, ambiental e de valores que atravessa o mundo. O bispo D. Odilon escreveu em sua saudação no caderno da programação: "Ao voltar para suas casas, vão satisfeitos, levem o coração ardendo de bons propósitos e a cabeça plena de sabedoria, com vontade de transformar a sociedade atual". E na abertura do Encontro falou da fome no mundo, da necessidade de mudanças e de abrir o coração. A sociedade de mercado e do consumo, exacerbada pelo neoliberalismo, foi condenada por todos os palestrantes. Não leva à felicidade e produz a desesperança, a ausência de utopia e sonhos. Cuidar da vida é pensar em construir um outro mundo possível. Uma nova economia, tal como propõe a Campanha da Fraternidade 2009 - Economia e vida - Economia solidária: Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24) -, é fundamental para a saúde do mundo e da humanidade. A COP-15, Cúpula das Mudanças Climáticas sinaliza a insustentabilidade dos atuais modelos de desenvolvimento. Uma nova espiritualidade, de dimensão integralmente humana e ao mesmo tempo divina, que envolva o individual e o coletivo, que brote das raízes da solidariedade, da justiça, é urgente e necessária. A fé e a política se encontram quando cuidam da vida e se deixam envolver pelos mais pobres e esquecidos, pelos trabalhadores e trabalhadores, e são capazes de amar, de chorar junto, de ligar a ética à democracia e ao bem comum. Um novo tempo, brasileiro e latino-americano, está sendo construído com a participação das maiorias oprimidas, que agora se levantam, ocupam seu espaço, têm vez e voz. Não se sabe onde e quando vai ser o Oitavo Encontro. Mas sua organização já está começando, comunidades se oferecendo como sede. Ipatinga em tupi-guarani significa ‘pouso da água limpa’. Seu José Martins, metalúrgico duramente reprimido na greve e no massacre da Usiminas de 1963, pelos que depois promoveriam o golpe militar, está vivo. Sua presença, quase 50 anos depois, mostra que a memória do povo permanece, mostra que a esperança vive. A fé de então dos operários metalúrgicos no Reino já a partir deste mundo e a política da luta e da organização por uma sociedade justa e solidária se unem para celebrar o cuidado com a vida, econômica, ecológica e espiritualmente. Valeu Ipatinga, o ‘pouso da água limpa’, que saciou a sede da água limpa e da beleza, da cidadania e dos direitos humanos, do sonho e da utopia, que vão saciar todos e todas no córrego da solidariedade, da paz e da justiça. Selvino Heck - Adital [Selvino Heck é da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política]
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