O P.I.M.E.

O interior abandonado

Encravada entre Bonito e Porto Murtinho, no meio da serra da Bodoquenha, era uma enorme fazenda de 24 mil alqueires e 6 mil reses reprodutoras, criadas ao estado bravo.
Uma centena de famílias ali morava entre paraguaios e caboclos sem instrução. Até então, nenhum padre tinha visitado aquela região onde todos se diziam batizados, mas ninguém sabia nada de religião. O único vestígio era uma festa tradicional, no dia 8 de dezembro, em honra de N. Sra de Caacupê, que terminava em bebedeiras e, às vezes, em morte.

O novo dono, num louvável esforço de fazer progredir aquela gente, pediu-nos uma professora-catequista e pôs à disposição seu avião para a visita mensal do padre. "Mas, cuidado! - dizia a dona, senhora religiosíssima e bondosa - porque eles nem sabem o que é padre, missa e reza".

A capela era uma mistura de estátuas quebradas, cruzes e fitas, enegrecida, dentro e fora, pela chama das velas, único ato de devoção que se transmitia de mãe para filhos. Naquele lugarejo, nem rezadeira tinham, o que no interior do Brasil é caso raro.

De fato, na primeira reunião para uma conversa de reconhecimento, havia muita tensão e todos pareciam bem desconfiados, alias, só as mulheres entraram e preferimos realizar o encontro no pátio. Quem era, afinal, aquele padre apresentado pelos donos? Certamente alguém que estava do outro lado e não a favor deles. Foi difícil arrancar respostas completas: quem era batizado, quem era casado ou juntado, quantas vezes e com quem. Em vista disso, decidimos por um período bastante longo de catequese com a professora-catequista e, depois, celebraríamos os batizados, a missa, os casamentos, criando assim um começo de comunidade ao redor da capela.

E assim fizemos.

Quatro meses depois, tudo estava relativamente preparado: batizados, papéis de casamento religioso com efeito civil. Tomamos a liberdade de legalizar todas aquelas situações, após ter explicado a importância do casamento indissolúvel e recebido muitos consensos com o balançar das cabeças. O dono ofereceu churrasco abundante e refrigerantes para todos. Foi um espetáculo.

Ao meio-dia, tudo estava resolvido: batizados, casamentos registrados e confissões. "Viramos gente!" diziam, manobrando as grandes facas para trinchar o churrasco. Todos se casaram e viraram compadres, por múltiplos apadrinhamentos e testemunhos.

No mês seguinte, ao descer do aviãozinho, a professora-catequista aproximou-se e cochichou: "Padre, tem mais casamento..." "Como? - perguntei - se casamos todos no mês passado?" "É que dois casais se desentenderam, trocaram as mulheres e querem casar."

Chamei os envolvidos, perguntei o que houve e as mulheres, ambas desdentadas, com uma aparência bem acima da idade: "É que nós queremos casar de novo: foi tão lindo a última vez..."

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