O P.I.M.E.

Testemunho

MENINOS DE RUA: QUEM MAIS APRENDE?

"OBRIGADO AGNALDO"

Agnaldo é um "MENINO"... Para ser sincero devo dizer que é um menino e não é ao mesmo tempo porque a idade dele ... mas deixa pra lá, ele parou no tempo ... ele vai ficar para "sempre" um menino de 15 anos. Vocês entenderam? ... Sim é isso mesmo, ele não vive mais no tempo como nós, por isso continua tendo 15 anos, esta foi a idade em que ele "saiu do tempo". Aliás, não "saiu" mas tiraram ele do tempo de uma forma violenta. Porque falar dele? É que eu estou com muita saudade dele por isso resolvi conversar um pouco com ele a fim de que vocês o conheçam. Vou conversar com ele como fiz muitas vezes quando ainda estava "no tempo".

Agnaldo, você lembra quando pela primeira vez, entrei no seu barraco? Lá morava sua Mãe doente, você e sua irmãzinha. O barraco era muito apertado, nem dava para se virar lá dentro. Lá no chão num cantinho uma fogueira quase apagada, só um pouco de brasa para preparar a pobre comida para sua Mãe, você e sua irmã. No chão um velho colchão, quase tudo rasgado, onde sua mãe estava ora deitada ora sentada, porque ela era muito doente. Você logicamente não ficava dentro de casa porque não tinha espaço para brincar, vivia mais na rua do que em casa. Você tinha apenas uns nove anos e nem se dava conta do estado grave de sua mãe. O importante para você era brincar. Mas a sua mãe não podia ser deixada sempre aí morrendo aos poucos. Afinal eu fora chamado para cuidar do estado de saúde de sua Mãe. Era urgente interná-la num hospital. Depois de muito andar de um hospital para outro, finalmente conseguimos interná-la, mas era tarde demais porque logo morreu. Sua irmã foi morar com outro irmão e foi levando a vida. Você, meu amigo, ficou "sozinho" lá naquele pobre barraco, sozinho, você ... mais ninguém ... Já tinha mais ou menos 11 anos. Você "dono de casa" Agnaldo, quem lhe dava comida? Quem cuidava de você? quem tinha amizade com você? Eu lembro que te encontrava andando pelas ruas da Vila sem rumo, buscando alguma coisa, mas buscando o que? ... Sim eu sei o que você procurava: vida, vida alegre, amor principalmente. Na comunidade Santa Rita, da qual gostava muito, você tinha pessoas amigas, não é? Lá ia todo dia porque encontrava pessoas que, como Maria de Jesus, lembra dela? que tanto se preocupou com você. Nós brincávamos muito, você passava horas e horas lá na comunidade, todos lhe queriam bem. Um dia, estava lá na Comunidade Santa Rita e você me disse, e isso me tocou profundamente: "Eu não sou gente". O que é isso Agnaldo, exclamei! Porque diz tais coisas? "E você respondeu: "Ninguém gosta de mim". Sim você tem toda razão porque aqui na comunidade tem tanta gente amiga, mas você sempre vive sozinho lá no seu barraco que era de sua mãe hoje falecida. Como devem ser tristes as noites lá no escuro e apertado barraco sem o abraço de sua mãe, sem nenhuma pessoa amiga que lhe mostre com gestos carinhosos que realmente é pessoa amiga. Queridos amigos, amigas, é duro para um adolescente sentir-se sozinho neste mundo. Sem comida, sem casa, sem ninguém, ninguém mesmo.

Agnaldo não é o único menino assim. Você já se perguntou como você faria para viver numa situação desta? "Por que você não trabalha, Agnaldo?" muitos perguntavam. É fácil para nós dizer assim porque nos incomoda um menino que não tem como viver e precisa dos outros para não morrer de fome e de abandono. Esta é a conversa de quem consegue viver e acha que é só questão de boa vontade. Mas vamos continuar nosso diálogo com o nosso Agnaldo. Você um dia chegou na comunidade todo feliz radiante de felicidade me mostrou a identidade que Maria de Jesus conseguira para você. Foi me contando com grande alegria: "agora vou estudar, vou trabalhar ..." Que coisa bonita ver você Agnaldo com tanta confiança na vida! Mas você já pensou que vive numa sociedade que discrimina? Agnaldo, você não tem ... boa presença ... você tem no rosto os traços de quem sofreu muito e seu rosto é até desfigurado, você já pensou nisto? " Sim realmente não tinha pensado; de fato ninguém te aceitou para trabalhar porque você nada mais é do que um "trombadinha", você é ladrão etc. etc. É isso que a sociedade diz de você meu querido Agnaldo.

Um dia você chegou correndo todo molhado pois estava chovendo forte. Assustado me disse que a polícia estava atrás de você. Me explicou dizendo que tinha pego uma bicicleta, na certa para vender por poucos trocados e assim comprar comida e viver. Conversamos muito naquele dia e você foi embora mais tranqüilo e nada lhe aconteceu. Sentiu-se protegido por nós da comunidade. E assim os dias foram passando. Sempre te encontrava alegre brincando e correndo. Sentia-me feliz quando você me gritava, até de longe, o seu "bom dia!". Minha alegria era saber que tinha um amigo como você.

Mas um dia, um triste dia, um dia chuvoso com aquela garoa tão chata, fazia até frio, de manhã bem cedo, alguém foi me procurar para me dar uma terrível notícia: "Mataram o Agnaldo". Não, não pode ser verdade, não é possível! Mas como é possível matar uma criança , um menino ... Quem fez isso e por que? Infelizmente era verdade. Fui te ver. Você estava lá no chão como se alguém tivesse-o jogado. Estava deitado de bruços, de braços abertos ... um tiro nas costas, um único tiro que alguém disparou contra você para te "matar". E foi com um tiro nas costas. Alguém que estava te perseguindo e planejou te matar. E você era um menino como todos os meninos desta terra, que gostam de brincar e querem viver. Seu corpo lá na chuva no meio do matagal. O dia inteiro passou e você sempre lá de bruços na chuva. Para você agora não fazia diferença estar na chuva ou não, não sentia frio porque agora sua vida não era mais a nossa. Você estava com Deus Pai no calor do seu amor. Já era noite quando foi removido seu corpo. Agnaldo, meu amigo, não era justo que você fosse enterrado sem dizer nem uma palavra, sem dizer para todo mundo que afinal das contas você não era nenhum marginal, mas apenas um Menino que queria viver como todo menino e menina quer. Que você também queria brincar como todo menino de sua idade faz. Por isso seu corpo foi colocado numa sala, que funcionava como capela, lá na Comunidade São João Batista perto de sua casa. Lá era seu lugar porque muitas crianças e adolescentes todos os dias passam horas e horas brincando e aprendendo ser amigos e amigas. Não havia lugar melhor. Muita gente foi te ver. Muitos falaram palavras bonitas mostrando sua solidariedade com você. Gente amiga vinda de longe queria homenagear a você que caiu vítima de uma sociedade egoísta e traiçoeira. Houve também quem disse que o padre abre as portas para os bandido. Agnaldo, me senti feliz por alguém dizer que eu estava do seu lado, solidário com você. Mas agora que você está na sua casa definitiva permita-me de lhe dizer o meu "Obrigado Agnaldo por tudo que você me ensinou". Com sua vida sofrida, no seu abandono e sua solidão, você sempre sabia até brincar. Muito sofrimento você carregava dentro, mas nunca desespero e desânimo.

Agnaldo eu te amo porque você está sempre presente na minha vida e muito tenho falado de você em todo canto onde eu vou. Obrigado Agnaldo e que Deus nosso Pai que te ama te segure entre seus braços. Obrigado Agnaldo!

Meus amigos, minhas amigas, Agnaldo é uma das tantas vítimas inocentes que tombam nesta verdadeira guerra que mata crianças e adolescentes. Aí vem os "salvadores dos meninos e meninas de rua" principalmente em época de política porque hoje falar que se quer fazer alguma coisa para "salvar meninos e meninas de rua" dá voto até nas eleições para prefeitos, governadores e presidentes. Os meninos e meninas não precisam de promessas eleitoreiras, mas sim de respeito, de solidariedade, precisam de alguém que saiba caminhar com eles e elas com muita humildade e desprendimento sem a pretensão de salvar a ninguém mas sim de caminhar juntos.

Você que é jovem o que está pensando? Faça alguma coisa. Forme um grupo ou na comunidade ou entre colegas, procure algumas instituições séria que tenha experiência, vá com seu grupo até os meninos como amigo como amiga que só quer estar com eles, com elas. Não faça para eles e elas propostas alguma, caminhe com eles e elas. Deixe que eles e elas construam junto com você seu caminho sua vida. Agora meu abraço amigo e fraterno.

Pe. Maurílio Mauritano

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